Deise Puga - Psicóloga - Carioca – RJ. Blog Pessoal/Prof: http://www.deisepuga.blogspot.com/ Aqui conto todas as experiências da mulher que nunca fugiu de seu tempo, mas jamais conformou-se com o simples correr do tempo...

Aposto em todas as almas femininas do universo de meus sonhos: homens e mulheres pacificados pelo auto-conhecimento.
Aqui, neste momento único, estão todas as crianças que vieram e virão habitar um mundo de colorido farto, abundante, que é o universo do Sentir... Aqui, acredito nas almas velhas de sabedoria, com quem aprendo as artes do viver em plenitude.

Experiencio, enfim, todos os deuses que habitam este raro diamante de azul infinito, que é o Espírito, na busca de que um dia, perdido ainda na eternidade, possa integrá-lo em um Ser único, uno e individuado.

ANIMAL

Há um animal habitando meu coração...

Intruso insólito em meus dias...
Parceiro íntimo em minhas noites.
Fugaz arrependimento à claridade da Luz...
Doce animal que me permite as proezas do crescer;

ardiloso algoz em minhas paixões...
Adentra-se, cautelosamente, nas profundezas de minha Casa,

qual doce bruma, perfumado das flores feiticeiras do Narciso...
Mas ao mínimo desalento, sopra qual desenfreado vendaval...

Devasta qual tornado enlouquecido...
É um animal, mas recende odores das manhãs de primavera pois,

como Maya, é o deus absoluto em minhas ilusões...
Deseja, ardentemente, a carne...

Mas acaricia com luvas de caxemira minh’alma enlutada e adormecida.
Sim... Habitas minha vida como se dela fosses dono;

abandonas-me mas vagas das incertezas, como se dela nada fosses...
Como branda chama apagando sob o persisitir de um sopro...
Ah! Sofres-me animal!
Eternizas-me nas infindas buscas de minh’alma...
Desfaz-me na homeostase da calma, porque o conflito é teu trono dourado...
O combate, teu “carro do sol”.

Deise Puga



NOITE

Oh! Noite em todas as noites,
No leito insone encontro-te nua,
A derramar serenos sobre minh’alma aflita...
A perfumar de sândalo meu corpo morto

que recende, ainda, a vil paixão de cada dia...
Encontro-te nua e solitária ainda a arrebatar-me, insólita,
os rasgos de euforia...
Quero expulsar-te de mim, mas que sei eu¿
És a parte mais dentro de meu coração...
A raiz do quanto é sensível...
A prosaica hora dos meus dias...
O doce véu que embala, em sedas,
As leves brisas em meus sonhos.
Noite em todas as noites...
Silenciosa voz a dominar em vida,
Qual lua branda que ainda me instiga,
A procurar refúgio em teu torpe coração.

Deise Puga



MULHER

No regaço desta flor que é tua essência de mulher,
Sorvo puro néctar,
Inebrio-me com o delicado licor
Que transborda de tuas entranhas,
Transportando-me a essa absoluta atemporalidade...
Em teus seios fartos de ternura,
Encontro repousante alento a alimentar meus primevos desejos...
Em teus calmos olhos de lilás vejo-me, em todos os tempos,
À procura da eternidade...
Tu és mãe, enquanto acaricias meus cabelos encanecidos de dor...
És mulher se descobres meus recônditos anseios,
E realizas-me, em plenitude orgásmica,
Ao delírio do prazer...
Ah! Doce amiga...
És a cara completude de mim mesma,
A refletir minhas passageiras ilusões,
Nas claras contas de teus olhos...
És uma estrela no amanhecer
Preservando-me ainda da escuridão das noites,
Alertando-me sempre dos perigos inebriantes da luz...
Tenra flor que ao mínimo sopro,
Abre-se em perfumes a meu sombrio coração...
Amo-te como tu me amas!
Renegas-me quando te renego!
Mas descubro-te quando me reconheço, enfim,
Mulher!

Deise Puga



TEMPO

Os dias correm céleres
E em minha pressa,
Esqueci de olhar as flores nos campos...
As horas marcham inexoráveis rumo ao futuro
E distraída, esqueci meus olhos pousados no passado...
Vejo os anos levando minha juventude e,
Não acredito que possa, jamais, ter tido qualquer idade...
Vislumbro estes dias de sol penetrando
As janelas de minh’alma e descubro,
Num instante,
Que extasiei
E a vida
Passou.


Deise Puga



SERPENTE


Há uma serpente dentro da pele...
Da cristalizada pele,
Transformada, já, em crisol...
Contorce o corpo em frenético ritmo,
Sufocada por ânsias de vida!
Debate-se dentro dessa pele;
Irreconhecível pele...
Sorve um amargo mel,
Das entranhas da dor...
Mas vislumbra luz,
Através dos poros abertos...
Vive a mais aterradora das noites,
Mas pressente o calor da luz,
A tocar-lhe a pele, tenra, quase viva,
Que a recobre, agora...
A carne viva anseia por renascer,
Depois da profunda solidão...
Após contorcer-se até a última fibra

de suas entranhas,
Dilacerando o arcaico Ser,
Para lançar-se, prenhe, na
Eternidade.

Deise Puga



SOLIDÃO

Desde que a morte visitou-me o coração,
Esta Casa não tem dono...
Escorrega como visgo, em um espaço vazio...
Imobiliza-se na permanência de um eterno canto.
Expressa-se nos verdes versos de meus dias.
As sombras dos mais inconfessáveis sonhos,
Eternizam-se em suas paredes...
Os móveis são seres perdidos em um mundo

insignificante de significados.
O aroma de Lar recende ainda,

porém não mais logra qualquer intimidade.
A luz esgueira-se buscando alcançar-me os olhos ávidos,
Mas a visão desfaz-se no vazio espaço da escuridão...
Abandono-me sobre o chão que a sustenta, embaraçada, porém,
Nas intrincadas teias que tecem os tapetes que a buscam agasalhar,
Inutilmente...
Ah! Como está sem dono esta vida...
Vazia de idéias...
De felicidades...
De plenitude...
Como está perdida e sem memórias.
Se Medita, é na maldita dor que a sustem...
Acendo velas a meu redor,
Almejando tocar as cumeadas divinas...
Descubro, então, minha imagem desfeita na fumaça...
Narcotizada,
No fétido cheiro de cera queimada.
É vão este abandono...
É trágica esta entrega...
Pois esta Casa é só solidão,
Desde que teus olhos de Senhor,
Abandonaram-me, livre,
Nesta torpe
Prisão.

Deise Puga